Antes de falar um pouquinho sobre minha experiência com a Dependência Química vou exemplificar um pouco sobre a questão comportamental minha envolvida no processo de ser um adicto. Para deixar clara e evidente a distinção entre ambos e minha compreensão sobre os dois aspectos.

O Adicto, pra mim, é uma pessoa que desenvolve a doença da adicção. Normalmente a pessoa que é adicta, ja desde infância desenvolve um distúrbio comportamental adoecido por aspecto compulsivo e obsessivo. Por exemplo: inveja, egocentrismo, arrogância, prepotência, dificuldade de lidar com crenças e ser honesto com relação à questão do divino, hiperatividade, independência social e outras questões mais adversas referente à esse comportamento. Normalmente são pessoas que tem uma fragilidade educacional no âmbito familiar que reflete em um adulto inseguro com dificuldades de lidar com questões rotineiras e metas pessoais pra consigo mesmo.

Quando eu era criança eu não entendia da onde vinha minha agitação. Eu não parava um minuto, eu queria ser o melhor em tudo e ter destaque para que as pessoas me olhassem. Para que elas me dessem atenção. Eu manipulava certinho meus pais e meus avós quando queria um brinquedo ou algo, já que meus pais sempre foram separados. Eu sempre me colocava com o certo, mesmo estando errado.

Quando me tornei adolescente, certos comportamentos e questões se agravaram muito. Eu me tornei o cara mais brincalhão da sala. Sempre estava metido em encrencas na escola mas ao mesmo tempo, sempre me esquivava. Sempre me achando superior. Manipulando os demais para assumirem a culpa e como consequência sempre conseguia isso e isso era motivo para me sentir melhor.

Nunca consegui manter uma proximidade à religião. Sempre me esquivava pois achava desnecessário e um saco ficar na igreja lá escutando o padre falar ou mostrar exemplos do que é ser uma pessoa melhor. Eu já era o bonzão, não precisava ouvir. Fui em diversas religiões e advinha, todas estavam erradas.

Quando minha fase sexual se desenvolveu na adolescência, aí muitas coisas mudaram na minha vida. Eu já tinha descoberto que transar, com quem quer que fosse era motivo de alegria e esquecimento dos problemas. Comecei minha vida sexual muito cedo, aos 13 anos eu ja sabia muito sobre sexo. Então para me esquivar de discussões em casa, problemas pessoais e da escola, eu já recorria ao sexo.

Quando adulto esses comportamentos de manipulação, vitimização e mitomania já estavam intrínsecos na minha personalidade. Eu já estava tão acostumado com isso que eu não me importava com nada e com ninguém. O que importava era eu conseguir o que eu quisesse, mesmo se tiver que passar por questões próprias de caráter.

Foi aí, e em um Réveillon entre os anos de 2009 e 2010 eu tive meu primeiro contato com a cocaína, e sinceramente, foi algo que por mais que muitas pessoas não acreditem, eu não senti absolutamente nada à não ser ter passado a sensação de embriaguez. Posteriormente eu me droguei novamente, mas mesmo assim, não me importava com a sensação já que apenas queria falar e fumar.

Esse uso, se tornou esporádico e recreativo durante alguns anos. Foi até o final de 2012. Onde eu usava aos finais de semana e algumas em festas. Até que uma vez eu descobri que me drogar e fazer sexo, era maravilhoso. Que transar “cheirado” era incrível, especialmente se eu fosse o passivo na relação. E meu “namorado” na época, era conivente com a situação. E então foi aí que me tornei dependente químico oficialmente.

Eu já mantinha em casa estoques de R$100,00 à R$200,00 reais caso precisasse usar para poder transar. Não necessariamente usava, mas sabia que teria. Então em 2013 começaram os problemas de faculdade como Projetos interdisciplinares, estágios, e primeira parte da monografia. E advinha? Eu usava para me anestesiar. Então eu já estava concomitantemente cheirando pra aliviar, cheirando pra transar e cheirando pra estudar.

E sabe o que aconteceu? Eu não conseguia mais parar de cheirar. Eu já deixava de comer corretamente, deixava de comprar meus cigarros para ter reservas para cheirar. E minha vida passou a ser só em prol a cocaína. Eu comecei a justificar que não tinha dinheiro pra isso ou pra aquilo pra minha família, para que eles pudessem me dar alguma coisa. Me adiantar algo e depois eu dizia que pagaria e nunca pagava. Posteriormente, encontrei um trabalho que me remunerava mais e ainda mais eu cheirava.

Tudo na minha vida era difícil, eu era um coitadinho que estava sozinho morando na cidade de Americana e não tinha a ajuda de ninguém quando na verdade era justamente o oposto, eu tinha tudo e todas as pessoas que gostavam de mim na minha mão e brincava com elas como eu queria. Até que em 2016 eu tive minha primeira overdose e tive que ser internado e então comecei a ver as coisas como elas realmente eram.

Comecei a enxergar como as pessoas que me amavam estavam de mãos atadas porque estendiam a mão e eu não conseguia ou queria me ajudar. As pessoas sempre se desdobravam pra fazer de tudo por mim, mas eu não conseguia sequer enxergar, porque queria a cocaína. Queria esquecer tudo nessa vida e queria transar. Esqueci de raciocinar para então viver de desejos. Eu era puro desejo. Eu não pensava em ninguém à não ser em mim mesmo.

E com o passar dos anos, mesmo em “recuperação”, mantinha o mesmo comportamento de anteriormente. Sempre manipulando, justificando com congruência certas atitudes e tentando enfiar na cabeça dos outros que eu era assim ou assado por causa disso e daquilo.

Por fim, hoje eu posso dizer que estou em recuperação. Não faz muito tempo, que estou sóbrio mas hoje eu consigo me enxergar. Consigo observar mais e entender que eu não sou responsável pelos outros mas sim por mim mesmo. Que eu sou o cara que se não olhar pra si e não tomar as rédias da minha vida, ninguém o fará por mim. Que as metas e objetivos que eu tenho nessa vida, só eu tenho que criar forças pra resolver.

Anular esse ego monstruoso que tenho por causa da adicção e me render à ela, aceitando-a e mostrando que a entendo e a respeito como doença, delimitando o que são pensamentos de um Renan em recuperação e pensamentos do Renan adicto. Perceber que tenho que criar um vínculo com a espiritualidade, seja ela religiosa ou não. Para então me permitir ser mais humilde, honesto, ter a mente aberta, ter boa vontade, e conseguir andar vagarosamente dando um passo por vez.

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