“O uso é aquela coisa, é dividido em fases. No primeiro momento ele é legal. Diverte, deixa a gente mais extrovertido e descontraído, apesar de eu ser pessoa extrovertida, enfim é algo bacana. Mas logo com o tempo se descobre a sensação de dependência que vem aliada a impotência. Justamente porque quando você não quer usar, sem perceber acaba recorrendo ao uso.

Com relação à internação, a vontade de realizar o tratamento, partiu da minha família, minha mãe e meus irmãos. Eu já sentia a necessidade de parar, como eu usava muito meu corpo já estava dando sinais de estafa, principalmente no coração que eu sentia muita dor após o uso. Mas quem encontrou a comunidade que eu fiquei foi uma Tia minha e minha Mãe que fez todos os trâmites.

No dia que eu me internei, minha mãe me ligou na hora do almoço falando dessa Comunidade, que era perto da cidade deles e seria mais fácil, e me deu a escolha, ou vai por bem ou vai por mal. Fui para conhecer e lá fiquei, fui muito bem acolhido, o lugar é maravilhoso e no final das contas fiquei até mais tempo que o tratamento pedia.

Onde fiquei é uma comunidade católica, o tratamento é baseado na Espiritualidade, oração, grupos de apoio e laborterapia. Todo o processo lá dentro foi muito intenso e profundo. A todo momento eu tinha contato com os Diretores/ fundadores da Instituição que estavam sempre prontos para parar e ouvir minhas dificuldades. É um carinho e dedicação inexplicável que eles têm com as pessoas que lá estão!

O tempo que fiquei na comunidade, eu nunca me apeguei na questão do tempo, não pensava na questão da saída. Nunca contei dias, tanto é que quando eu fiz seis meses eu fiquei surpreso. Eles me avisaram que eu iria sair pra minha primeira ressocialização, e eu fiquei extremamente surpreso. Mas eu acho o seguinte, esse lugar que eu fiquei, eles preparam muito bem as pessoas que estão no processo de saída.

O lugar que eu estava me dava uma proteção, uma sensação de confiança muito grande. Quando eu estava próximo a saída eu senti um pouco de insegurança mas em contrapartida eu estava amparado pela instituição e ao mesmo tempo pela família. Sempre reforçando que se houvesse o sentimento de insegurança, ou de recaída, eu poderia voltar. E apesar de não ter esses sentimentos, mas meu carinho pelos cuidados que tive lá, me fazem manter esse contato e amizade.

Logo que eu saí, eu fui cuidar de umas pendências que tinham ficado para trás, eu fui colocando minha vida em ordem. Os cinco primeiros meses depois da minha saída, eu tive apoio da minha família nesse processo de reestruturação e depois eu fui viver minha vida em São Paulo. Mas eu acho que eu fui realmente curado, justamente por conta do processo espiritual feito na instituição, eu fui muito curado lá, principalmente em relação ao vício. Eu trabalhei em restaurantes em São Paulo, então tive que fazer muitos trabalhos que envolviam o manuseio de bebidas. Trabalhei como gerente, então às vezes eu tinha que ficar como copeiro, e como consequência manusear as bebidas.

Logicamente eu tomo muitas precauções, eu rezo, eu me resguardo. Quando eu sinto a insegurança eu busco muito o apoio espiritual. Eu aprendi a me focar, eu tenho uma firmeza muito grande hoje nessa área. Eu aprendi que eu se eu quiser me manter sóbrio e limpo, eu tenho que tomar cuidado. Eu não posso falar que um dia não vou recair, porque justamente não sabemos o amanhã, mas com relação ao hoje eu me cuido, eu tomo os devidos cuidados. Eu me afastei das pessoas que estavam envolvidas no uso, hoje eu tenho uma distância segura, para que justamente eu não recaia.

O processo de internação para mim, hoje vendo da maneira que minha vida mudou, foi a melhor coisa. Justamente porque foi fundamental, porque eu criei uma base para minhas estruturas, eu criei outras estruturas, outras formas de olhar a vida. Eu criei um vínculo com a espiritualidade muito forte. Uma confiança em Deus muito grande principalmente em mim, porque eu sou capaz. E se for para colocar uma nota de 0 a 10 eu dou 10.

E com certeza com tudo que isso aconteceu na minha vida, eu hoje, me considero um vencedor, eu me considero uma pessoa que venceu o vício. Lógico, a gente nunca pode deixar o “ego” falar mais que a gente. Temos que ter muita consciência da nossa doença, do que isso representa pra gente. Eu me considero um vencedor sim, mas ao mesmo tempo eu sou muito pé-no-chão e sempre me policio.”

Palavras de: Edson Tozzi

(11) 95396-2760

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